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Netnografia e entendimento do outro

Netnografia e entendimento do outro

Em aula realizada pela antropóloga Valéria Brandini trazendo o conceito de Etnocentrismo como sendo a forma de ser do meu grupo, a lente como enxergo o mundo, vimos que não enxergamos a realidade como ela realmente é, mas sim como somos. Ou seja, enxergamos através dos nossos valores, visão de mundo e nosso ETHOS (códigos culturais de um grupo).

Peço licença para relatar uma experiência pessoal. Em 2018, realizei um antigo sonho que era visitar o Egito. Meu fascínio pela civilização e sua história vinha desde a infância, principalmente em relação às rainhas. Tão altivas e poderosas, mulheres inteligentes que governaram um império sozinhas ou com participação ativa ao lado de seus faraós.

Sempre que viajo a outro país tento ao máximo me atentar para as regras e valores daquele grupo. Entendendo que estaria em um país onde valores e códigos de comportamento diferem do meu universo, me preparei de acordo. Contudo, me preparei fisicamente: não levei nenhuma calça, coloquei vários lenços coloridos na mala para poder cobrir os cabelos, nenhuma roupa tinha ombros à mostra, as saias sempre longas ou na altura do joelho, aprendi as palavras bom dia e obrigada e assim embarquei.

Inúmeras vezes confirmamos com nossos guias locais de que não teríamos problema algum em sermos 03 mulheres viajando sozinhas pelo país e sempre ouvimos que o país era muito turístico, que tinham se modernizado e estavam mais que acostumados com turistas. Pois bem, na chegada no aeroporto com nossas malas sendo reviradas de todas formas o policial que estava revistando não olhou em nenhum momento para nós e somente falava em árabe com nosso guia, as lojas em torno do nosso hotel no centro do Cairo eram majoritariamente masculinas, não víamos mulheres nas ruas e elas também não trabalham no comércio. Nós sempre andávamos atrás do guia e nunca ao lado, o mesmo aconteceu quando saímos para jantar com um amigo egípcio que nos mostrou o Cairo a pé. Dentre outras situações das quais não me estenderei aqui.

Nos últimos dias da viagem, em visita a uma mesquita com uma guia muçulmana que passaria os últimos dias conosco, fomos abordadas (isso aconteceu muitas vezes nos templos) por um menino de mais ou menos 8 anos. Ele e mais sete amigos insistiam para tirar foto conosco. Diziam que iam postar no Facebook e acabei questionando o garoto do por que as turistas serem tão diferentes para eles. A resposta dele foi de que ele nunca tinha visto nem a mãe sem lenço dentro de casa.

Ouvindo isso, sentei próximo à guia e destilei toda a minha indignação feminista ocidental para ela sobre a opressão feminina que via ali. A resposta dela foi um “tapa” na minha atitude:

“Eu não vejo o fato de não poder trabalhar por exemplo como uma opressão, para nós cada um tem o seu papel, nós não sofremos ou somos infelizes por isso. Aqui o homem traz o dinheiro, enquanto nós cuidamos da casa, família e filhos. É uma troca que achamos justa. Pior pra mim é como acontece no ocidente em que a mulher se mata de trabalhar e ainda é abandonada pelo marido ou companheiro que muitas vezes nem assume os filhos. O homem aqui não pode abandonar a família de maneira alguma”.

Naquele momento eu havia utilizado os meus significados culturais para ver realidade daquela cultura que também me enxergava a partir dos valores dela.

O fato é que não existe uma única narrativa e o papel da Antropologia é justamente pesquisar, descrever detalhadamente e abrir novo olhar para a teia de significados de determinada cultura. Mais uma ferramenta estratégica essencial para o marketing entender de fato como a sociedade consome de acordo com cada código social, sinalizando as direções de consumo.

Atualmente mais ainda com a utilização da Netnografia: instrumento metodológico aplicado da antropologia digital. Juntamente com a inteligência artificial, a união entre quantificação de dados recolhida dentro do mundo digital ao entendimento do comportamento de determinado grupo em análise profunda, trazem então resultados estratégicos para desenvolvimento de produtos.

 

Autoria do desenho: https://www.freepik.com/vectors/people'>People vector created by vectorpouch - www.freepik.com</a>

Marketing na Era Digital
Larissa Monteiro
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Turismóloga de formação, há mais de 11 anos trabalhando com turismo e ajudando as pessoas a viverem um mundo sem fronteiras. Típica Gereção Y raiz, formada em humanas, tendo biológicas como hobby e muito curiosa em exatas. Prazer!

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